Marcos Ferreira Santos
Lab_Arte: uma conquista dos alunos em arte educação & cultura







O Lab_Arte laboratório experimental de arte-educação & cultura (www.marculus.net) é um laboratório didático da FEUSP recém-criado por iniciativa dos alunos de Pedagogia para tentar suprir uma importante lacuna nas atividades formativas da instituição a partir de experimentações e vivências nas várias linguagens artísticas, numa perspectiva antropológica, levando em conta a diversidade cultural, étnica e artística.

   

Oficialmente vinculado ao EDA foi aprovado como laboratório didático pela Congregação FEUSP (2006), bem como se constitui como diretório de pesquisa no CNPq agregando professores e investigadores de várias instituições públicas de pesquisa, produzindo dissertações, teses, trabalhos complementares de curso e relatórios finais de iniciação científica.

A proposta pedagógica do laboratório também ressalta a importância de garantir espaço tanto para a discussão teórico-experimental como para a mostra de produções artísticas dos próprios alunos em forma de recitais, saraus e intervenções comunitárias nos projetos parceiros. Assim, conquistam um espaço de exposição de suas próprias produções e exercício de autonomia que, dificilmente, obtinham, institucionalmente, na faculdade de educação. Apesar do discurso retórico predominante. Triste contradição.

Ao pautar-se pela pesquisa teórica e pela experimentação em situações educacionais, suas atividades se inserem no âmbito das atividades de extensão e cultura da FEUSP pelas noções de “vida acadêmica” e “ação comunitária” (não-assistencial). De um lado incentiva a fruição artístico-estética da comunidade feuspiana em atividades de extensão (colóquios, seminários, lançamentos, performances, recitais, saraus, guerrilhas culturais, etc) em eles próprios são protagonistas e criadores; e de outro, na “ação comunitária” estende estas atividades em intervenções comunitárias nos projetos parceiros na medida em que o diálogo intercultural com a valorização das matrizes ameríndias e afro-descendentes bem como das culturas populares é o ponto de partida de reflexão sobre a cultura ocidental. E, em especial, as limitações da cultura escolar ocidental tanto no âmbito da educação básica como do ensino superior e formação de professores.

O movimento iniciou-se em 2004 a partir de um evento que organizei na FEUSP sobre os 40 anos do golpe militar: “Memória & Resistência: a educação pelo engajamento”. Os alunos e alunas do curso de Pedagogia foram “mobilizados” pelo exercício da memória e testemunho daqueles que, mesmo sob a pressão e perseguição de um regime violento, encontrava espaços para a criação artística e a experiência estética num engajamento existencial para a gestação de novos tempos. Alguns companheiros comentam a “semelhança” da atuação do Lab_Arte com os velhos e risonhos CPCs Centros Populares de Cultura espalhados pelos Brasil através da antiga UNE União Nacional dos Estudantes. Evidentemente, a semelhança não é casual, embora os moventes para a sua criação tenham sido intensificados pela falta de espaços criativos, estéticos e reflexivos sobre a educação sob o prisma de uma dimensão mais existencial.

Hoje, os tempos são outros, mas a necessidade do engajamento criativo e estética ainda permanece. Sobretudo, com uma reforma curricular do curso de Pedagogia (1998) que supriu determinadas lacunas, mas abriu outras tão importantes quanto o conhecimento legal, didático e de financiamento do sistema educacional. Digo da falta de um núcleo curricular que conseguisse “furar o cerco” das “grades curriculares” (tendência de engessamento dos cursos) e que contemplasse a perspectiva mais antropológica e das alternativas em arte-educação. Hoje, permanece no currículo tão somente uma única disciplina obrigatória que abriga dois “conteúdos”, absolutamente específicos e que demandam grande reflexão, conhecimento e exercício experimental: ensino de artes e movimento.

Assim, mobilizados pela falta, os alunos experimentaram a organização de uma Semana de Artes (2005); um evento congregador de funcionários, alunos e professores, chamado de “Fermentação” (2005) e um núcleo chamado “Estopim” que, independente do CA - Centro Acadêmico, conseguiu organizar vários eventos relacionados à arte-educação & cultura e, sobretudo, um primeiro núcleo musical chamado de “pedagogós”. A necessidade de dialogar e experimentar diferentes linguagens foram agregando colaboradores externos em oficinas assim como compartilhar oficinas ministradas pelos próprios alunos ao grupo, dividindo o conhecimento que possuíam. Deste movimento de alunos e alunas é que me veio o honroso convite para coordenar o que seria um laboratório didático e grupo de pesquisa; depois, reconhecido, formalmente, pela Congregação da FEUSP.

As nossas grandes dificuldades se encontram - como para alguns outros grupos - na falta de um espaço físico adaptado (palco, barra, espelhos, isolamento acústico, pia e armários para material de pintura e escultura, etc) que a concepção “caixotesca” de educação ocidental (nos termos de Georges Gusdorf), predominantemente cognitiva e reprodutora, nunca prevê. Assim como dificuldades e entraves na obtenção de financiamento. Como nos situamos na zona fronteiriça entre os elementos do triplé (extensão, pesquisa e ensino), nossas atividades não entram nas prioridades das agências de fomento interno (de orçamento modesto) e externa (de disputa acirrada e critérios baseados nas ciências bio-médicas). Mesmo programas como Vitae e Petrobrás Cultural procuram financiar atividades que não estejam atreladas às universidades públicas (que já pressupõe alocação de orçamento próprio).

Mesmo assim, franciscanamente, o Lab_Arte têm alicerçado sua abrangência em atividades de cooperação internacional (curiosamente com maior reconhecimento e financiamento) com recebimento de alunos estrangeiros (Espanha e Alemanha), bem como participação de alunos FEUSP em universidades estrangeiras (Espanha, Índia, Portugal e Argentina). Atualmente estrutura um convênio internacional tripartite entre Brasil (Lab_Arte/USP), Chile (Grupo Compostela de Estudios sobre Imaginarios Sociales, Universidad de Concepción) e Espanha (Universidad Complutense de Madrid, Universidad Autónoma de Madrid e Universität Ramón Llull - Barcelona) sobre “Música e Topofilia: paisagens sonoras femininas ibero-ameríndias”.

Alunos e alunas do Lab_Arte que integraram programas de intercâmbio:
- Débora Silva Carvalho (2007)- para Universidad de Buenos Aires - Argentina
- Julia Henning da SIlva (2007)- para Projeto Footprints - Baroda - Índia
- Carolina Freire Antunes (2007)- para Universidade Nova de Lisboa - Portugal
- Katharina Heide (2006/2007); e
- Sophie Arenhövel (2007/2008) - oriundas da Carl von Ossietzky Universität, Oldenburg - bolsistas da Fundação Heirich-Böll-Stiftung, do Partido Ecológico da Alemanha
- Ruben Vega Balbás (2004/2005) doutorando oriundo da Universidad Complutense de Madrid - Espanha - bolsista MECD-DGU
- Eva Egido Leiva (2004/2005) mestranda oriunda de Acciones Imaginárias - Madrid - Espanha

Estruturalmente, o Lab_Arte se baseia em quatro núcleos de vivência e experimentação em: teatro, corpo & mito, música, e artes visuais.

Pretende ainda organizar, futuramente, mais um núcleo de poesia e experiências literárias, a ser chamado de “núcleo da Palavra”, organizando saraus e oficinas literárias .

As atividades regulares do Lab_Arte são:
-Núcleos de Vivência e Experimentação (encontros semanais)
-Pensarte 2007 (programação quinzenal de colóquios e recitais com convidados
e mostra de alunos e alunas)
-Vivências (mensais)
-Grupo de Estudos (mensal)
-Reuniões gerais de coordenação

Para tanto, há alguns projetos comunitários parceiros onde os alunos desenvolvem as atividades de extensão (ação comunitária não-assistencial), pesquisa (reflexão e investigação antropológica) e educação (situações educacionais recíprocas) nas oficinas experimentais para além dos muros da FEUSP:

Projeto Cala-Boca-Já-Morreu (domínio dos meios de comunicação por crianças e adolescentes em educomunicação rádio, vídeo, jornal e internet),

Projeto Piá (coletivo de alunos e alunas da graduação FEUSP para trabalho educativo com crianças pequenas),

Projeto Âncora (ong no município de Cotia envolvendo Circo-Escola e Creche),

Projeto Comunidade São Remo, Projeto Comunidade Vila Dalva e Projeto Serpentes no imaginário infantil (Rio Grande do Sul) com a artista plástica Cláudia Sperb,

Projeto IEB - Educação - acervos pessoais.

A partir deste segundo semestre, as atividades do Lab_Arte se abriram também para o exercício de estágio curricular dos alunos e alunas dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura, visando proporcionar experiências significativas nas várias linguagens artísticas, processos de criação e diálogo intercultural em seu percurso formativo de forma que a vivência, experimentação e criação sejam referências para a sua futura atuação como educador no âmbito dos processos sócio-educativos assim como também nas formas escolarizadas de ensino. Os interessados e interessadas deverão optar por um dos mesmos núcleos de vivência e experimentação: teatro, corpo & mito, música, ou artes visuais.

As atividades dos estagiários nas 60 horas semestrais de carga horária estão focadas na: participação nas atividades dos núcleos, reuniões de coordenação, freqüência aos encontros semanais de experimentação, colóquios, recitais, vivências, intercâmbio com os estudantes estrangeiros, pesquisa bibliográfica, grupos de estudos e intervenções comunitárias nos projetos parceiros, manifestações de cultura popular, além de outras atividades mais específicas de infra-estrutura do laboratório (base de dados, divulgação, produção de performances, etc).

Possuem acompanhamento e solução de dúvidas em reuniões a serem agendadas com o coordenador no horário de plantão, com o mesmo registro de atividades em formulário padrão, mas a forma de avaliação mais coerente com o espírito do laboratório será na forma de performance (em qualquer das linguagens ou na hibridização entre elas) a ser realizada no final do semestre com avaliação coletiva pelo núcleo e coordenador.

Hoje, curiosamente, a existência de um laboratório como o Lab_Arte já é previsto até mesmo na Resolução CNE/CP Nº 1, de 15 de maio de 2006, do Conselho Nacional de Educação, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, como deixa entrever o seu artigo 6.o: “A estrutura do curso de Pedagogia, respeitadas a diversidade nacional e a autonomia pedagógica das instituições, constituir-se-á de: (...) I - um núcleo de estudos básicos que, sem perder de vista a diversidade e a multiculturalidade da sociedade brasileira, por meio do estudo acurado da literatura pertinente e de realidades educacionais, assim como por meio de reflexão e ações críticas, articulará: (...) (...) e) aplicação, em práticas educativas, de conhecimentos de processos de desenvolvimento de crianças, adolescentes, jovens e adultos, nas dimensões física, cognitiva, afetiva, estética, cultural, lúdica, artística, ética e biossocial; (...) i) decodificação e utilização de códigos de diferentes linguagens utilizadas por crianças, além do trabalho didático com conteúdos, pertinentes aos primeiros anos de escolarização, relativos à Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História e Geografia, Artes, Educação Física; j) estudo das relações entre educação e trabalho, diversidade cultural, cidadania, sustentabilidade, entre outras problemáticas centrais da sociedade contemporânea; k) atenção às questões atinentes à ética, à estética e à ludicidade, no contexto do exercício profissional, em âmbitos escolares e não-escolares, articulando o saber acadêmico, a pesquisa, a extensão e a prática educativa;” (grifos meus).

Dessa forma, o Lab_Arte se articula com a área de conhecimento que vimos estruturando a partir das disciplinas optativas que criei em 2000: “Cultura & Educação: Imaginário e processos simbólicos” e “Cultura & Educação: a teoria da complexidade e cultura escolar”, visando atender, minimamente, a lacuna aberta em antropologia da educação, de um lado, e em arte-educação, de outro lado; ainda que num nível mais experimental e de vivência metodológica na freqüência aos cursos como faço desde o início dos anos 80. Para minha satisfação, os alunos do laboratório tem se engajado também nas minhas conferências, dentro e fora da USP, retomando a idéia de performance poético-musical na apresentação das reflexões. E assim, volto também a compor, arranjar e tocar com eles...

Assim, o engajamento, o sorriso e a satisfação dos alunos e alunas, bem como as produções artísticas e reflexivas que vêem realizando me asseguram que vale a pena o esforço e a desordenação dos tempos e espaços didáticos tradicionais na faculdade complexificando ainda mais o triplé: extensão, ensino e pesquisa - com mais alegria pelos corredores, saguões e pátios: mãos sujas de tinta, rostos suados de dançar, a voz embargada nos cantos, o som coletivo dos instrumentos folclóricos e o olhar de quem se reconheceu vivo, criativo e respeitado nos interstícios de uma grade curricular.